Taxa mista: o fim do período fixo não é um pico em 2027 (é uma onda que já começou)

Atualizado em 19 de outubro de 2026

Quando acaba o período fixo, o crédito passa a Euribor + spread. Vê o que muda na prestação e o que comparar antes da data.

Taxa mista: o fim do período fixo não é um pico em 2027 (é uma onda que já começou)
Tiago
TiagoAutor
19 de outubro de 2026
8 min de leitura
Todos os meses há créditos a sair do período fixo da taxa mista. Quem tem a carteira mapeada chega primeiro.
Quando acaba o período fixo, o crédito passa a taxa variável: Euribor + spread, nas condições do contrato. A prestação é recalculada com o capital em dívida e o prazo que falta. Pode subir. Pode descer.
Ouço muitas vezes falar de "2027" como se fosse uma data marcada no calendário.
Não é. É uma onda.
Isto não vai acontecer tudo de uma vez. Já está a acontecer, todos os meses, e vai continuar nos próximos anos.

O que mudou em três anos#

A taxa mista passou de opção rara a regra.
Segundo o Banco de Portugal, citado pelo ECO, 25/09/2026 (abre num novo separador):
  • Entre 2019 e 2021, a taxa mista representava, em média, cerca de 10% do montante dos novos créditos à habitação.
  • No 1.º semestre de 2026, representava cerca de 80% do montante dos novos empréstimos. Nos meses mais recentes, tem ficado entre 75% e 85%.
  • O período fixo é curto. Em Portugal, os contratos concentram-se em períodos iniciais de um a cinco anos, com uma mediana perto de dois anos.
Se quase todos os créditos novos são mistos, e o fixo dura cerca de dois anos, a saída do período fixo não cabe num único mês.

Porque é uma onda e não um pico#

Cada crédito a taxa mista passa por esta transição uma vez. Cada um passa na sua data.
  1. A maioria fixou a taxa por dois a três anos. Quem contratou em 2024 com dois anos está a sair agora, em 2026.
  2. Quem contratou em 2024 com três anos, ou em 2025 com dois, sai em 2027.
  3. Quem fixou por mais tempo sai mais tarde.
  4. Quem contratou este mês entra na fila daqui a uns anos.
Como a taxa mista domina os novos contratos há vários anos seguidos, todos os meses há créditos a chegar ao fim do período fixo. Não há um único dia em que tudo acontece.
A transição já mexe com os clientes. O relatório do Banco de Portugal "Sistema Bancário Português: Desenvolvimentos Recentes" (2.º trimestre de 2026), citado pelo ECO, olhou para os contratos a taxa mista celebrados em 2023 que já tinham passado a taxa variável até março de 2026. Cerca de 20% foram renegociados perto da data. Em cerca de 40% desses casos, a taxa voltou a ser fixada por pelo menos mais dois anos.
São dados preliminares, e só cobrem contratos de 2023. A mudança já começou. Qual vai ser a dimensão, ainda não se sabe.
A ANICA espera mais procura de renegociação em 2027. Em entrevista ao Jornal PT50, 06/10/2026 (abre num novo separador), o presidente da associação, Tiago Vilaça, disse sobre as famílias:
"Muitas fixaram a taxa dos seus créditos em 2024 e 2025, por períodos de dois a três anos. [...] o que antecipo que possa ocorrer ao longo de 2027."
É uma expectativa, não um facto. 2027 pode ser um ano mais cheio. Não é o único.
Nos próximos anos, todos os meses há clientes a sair do período fixo. Quem tem a carteira mapeada chega primeiro.

O que acontece à prestação#

No fim do período fixo, sem renegociação, o contrato faz o que já estava escrito nele. A taxa passa a ser indexante + spread, por exemplo Euribor a 12 meses mais o spread. A prestação é recalculada com o capital em dívida e o prazo que falta. A partir daí, muda a cada revisão, conforme a Euribor.
Pode subir. Pode descer. Depende da Euribor no momento da transição, do spread e da taxa fixa que tinhas. Expliquei como a Euribor passa para a prestação no post sobre a subida da prestação em outubro.

Exemplo simples#

Valores redondos, de propósito. Não é uma simulação de nenhum banco, nem uma previsão da Euribor.
Crédito de 150.000€, a 30 anos, taxa fixa de 2,5% nos primeiros 2 anos, spread de 1% depois disso. Prestação constante, sem seguros nem comissões. Ao fim de 2 anos, ficam cerca de 143.100€ em dívida e 28 anos de prazo.
FaseTaxa (exemplo)Prestação mensal (aprox.)Diferença face ao período fixo
Período fixo (anos 1 e 2)2,5% fixa593€—
Depois, se Euribor = 1%1% + 1% = 2%557€cerca de −36€
Depois, se Euribor = 2%2% + 1% = 3%630€cerca de +37€
Depois, se Euribor = 2,5%2,5% + 1% = 3,5%669€cerca de +76€
Depois, se Euribor = 3%3% + 1% = 4%709€cerca de +116€
76€ a mais por mês são cerca de 912€ por ano.
O valor real depende do teu contrato: capital, prazo, spread, indexante e data de revisão. Está na FINE e no contrato. Se nunca leste a tua FINE com calma, começa por aqui: Como ler uma FINE.

O que comparar antes da data#

Se não fizeres nada, a transição acontece sozinha. O que vale a pena decidir é outra coisa: comparar o crédito atual com propostas concretas, com a mesma régua.
A TAN primeiro. É o indexante mais o spread que vais passar a pagar.
A TAEG a seguir. Junta juros e encargos, e é o número menos mau para comparar propostas umas com as outras. O que inclui, e o que fica de fora, está no Como ler uma FINE.
O MTIC, o montante total imputado ao consumidor, é o que pagas até ao fim. É aqui que uma prestação mais baixa se pode revelar cara.
Os seguros, de vida e multirriscos.
Depois, o que custa mudar: avaliação, processo, escritura, registos, imposto do selo.
E a comissão de reembolso antecipado. A lei fixa um máximo de 2% do capital reembolsado se o reembolso acontecer no período de taxa fixa, e de 0,5% se acontecer no período de taxa variável (DL 74-A/2017, art. 23.º, n.º 5 (abre num novo separador)). Numa taxa mista, conta a fase em que o reembolso acontece.
Pagar menos por mês não quer dizer pagar menos no total.

Se és intermediário#

Esta onda já está na tua carteira. A pergunta é se a consegues ver.
Há duas coisas que a maior parte das ferramentas não faz. Saber quando: em que mês é que cada cliente sai do período fixo. Essa data costuma estar num PDF, num Excel, ou na memória de alguém. E comparar: pôr a FINE atual ao lado de várias propostas, com TAN, TAEG, MTIC, seguros e comissões alinhados. Os simuladores dão uma proposta de cada vez. O resto continua à mão.
Se a conversa acontece um mês antes da data, há tempo para pedir propostas e compará-las com calma. Se acontece depois da carta do banco, é quase sempre a correr.
Sobre o que muda na forma de comparar propostas, escrevi no post do novo regime dos intermediários de crédito.
A relação com o cliente é a mesma. O que muda é o momento em que ela é posta à prova.

Se tens crédito#

Antes da data, vê na FINE e no contrato quando acaba o período fixo, qual é o indexante e qual é o spread. Pede a FINE de qualquer proposta que te façam. Sem isso, não há comparação. Fala com um intermediário de crédito, ou com o teu banco, antes de assinar.

Onde a fineMind entra#

Construí a fineMind para este trabalho.
Lê a FINE atual e as das propostas novas. Põe a TAN, a TAEG, o MTIC, os seguros e as comissões lado a lado, e mostra a data de fim do período fixo que vem na FINE.
Não decide por ti. Os números ficam à vista. A decisão é tua, e de quem te acompanha. Não dá aconselhamento financeiro, nem diz se deves renegociar, transferir ou ficar. Não prevê a Euribor. Ninguém prevê. E não substitui o intermediário, nem garante, por si só, o cumprimento de obrigações legais ou regulatórias.

Conclusão#

O fim do período fixo não é uma surpresa. Está escrito no contrato desde o primeiro dia.
A surpresa só acontece a quem não olhou para a data.
A data já está marcada. A decisão ainda não.

Fontes#

  • ECO, "Taxa mista do crédito à habitação dispara de 10% para 80% em três anos", 25/09/2026, citando o relatório do Banco de Portugal "Sistema Bancário Português: Desenvolvimentos Recentes" (2.º trimestre de 2026): eco.sapo.pt (abre num novo separador)
  • Jornal PT50, "Fim do período de taxa fixa no crédito à habitação pode aumentar a procura de renegociação dos contratos", entrevista a Tiago Vilaça (presidente da ANICA), 06/10/2026: jornalpt50.pt (abre num novo separador)
  • Decreto-Lei n.º 74-A/2017, art. 23.º, n.os 5 e 9 (versão consolidada, Diário da República): diariodarepublica.pt (abre num novo separador)

Perguntas frequentes

O que é a taxa mista?

É uma taxa fixa durante um período inicial, normalmente de poucos anos, seguida de uma taxa variável: indexante (como a Euribor) + spread. Durante o período fixo, a prestação não muda com a Euribor.

O que acontece se eu não fizer nada no fim do período fixo?

O crédito passa a taxa variável, nas condições previstas no contrato: indexante + spread. A prestação é recalculada e passa a mudar a cada revisão.

A minha prestação vai subir?

Não necessariamente. Depende da Euribor na data da transição, do teu spread e da taxa fixa que tinhas. No exemplo do artigo, pode descer ou subir.

Posso renegociar antes de o período fixo acabar?

Podes pedir propostas ao teu banco ou a outros bancos. Há quem o faça perto da data: nos contratos a taxa mista celebrados em 2023 que já tinham passado a variável até março de 2026, cerca de 20% foram renegociados perto da transição, e em cerca de 40% desses casos a taxa voltou a ser fixada por pelo menos mais dois anos (Banco de Portugal, citado pelo ECO). São dados preliminares.

Fonte: eco.sapo.pt (abre num novo separador)

Pago comissão se mudar de banco no fim do período fixo?

Mudar de banco implica reembolsar o crédito atual, e a lei fixa um máximo para a comissão de reembolso antecipado. O que conta é a fase em que o reembolso acontece: até 2% do capital reembolsado se ainda estiveres no período de taxa fixa, até 0,5% se já estiveres no período de taxa variável (DL 74-A/2017, art. 23.º, n.º 5). A lei prevê isenção em algumas situações, como morte, desemprego ou deslocação profissional (n.º 9 do mesmo artigo). O valor concreto está no teu contrato e na FINE.

Fonte: diariodarepublica.pt (abre num novo separador)

Onde vejo a data em que acaba a minha taxa fixa?

Na FINE e no contrato. Se não encontrares, pede ao banco por escrito.

Isto é só um problema de 2027?

Não. Quem contratou em 2024 com dois anos de taxa fixa já está a sair agora. Quem fixou por dois a três anos em 2024 e 2025 vem a seguir.

Fonte: eco.sapo.pt (abre num novo separador) · Fonte: jornalpt50.pt (abre num novo separador)

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